Yumbo e a visão celestial muito antes do Buraco Negro
Muito antes da descoberta do Buraco Negro, uma civilazação do Equador - os Yumbo - já conheciam os segredos do nosso Céu.
Yumbo
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Yumbo e a visão celestial muito antes da imagem do Buraco Negro

Guagua Pichincha

Yumbo e a visão celestial muito antes da imagem do Buraco Negro

As recentes fotos do Buraco Negro no interior da galáxia M87 causaram assombro entre cientistas e pessoas do mundo todo. E, no Equador ganha luz a história da ancestral cultura dos Yumbo, mais próxima do Céu do que da Terra.

Era o início da estação chuvosa de 1660. Nos Andes equatorianos uma explosão seguida de gigantesca onda de cinzas anunciou que vinha chumbo grosso das montanhas gêmeas Guagua Pichincha (4787m de altura) e Rucu Pichincha (4320 m). Tremores sísmicos, lançamento de pedras incandescentes, rios de lava, vapores venenosos, incêndios e obscurecimento total por vários dias – o mais avassalador desastre natural daquele país dos últimos mil anos. A catástrofe atingiu em cheio a região de Tulipe, 70 km a nordeste da capital Quito.

 

Yumbo


A ilustração revela que os Yumbo canalizavam as águas para as piscinas
crédito: Museu Tulipe

 

Séculos após o desastre, já no início de 1980, para um observador desavisado Tulipe não passaria de um bosque subtropical, pontuado por pequenas propriedades de agricultores, em meio à bucólica paisagem das montanhas andinas. Mas o arqueólogo equatoriano Hólguer Jaras entrevê pequenos montes de terra que se sobressaem no terreno. Logo depois irá descobrir que se tratavam de Tolas, ou aterros artificiais construídos para sepulturas. Seu desenho arquitetônico se configura como uma pirâmide truncada, com uma ou duas rampas de acesso.
O que Jaras – e ninguém – poderia suspeitar era a magnitude das construções, principalmente piscinas, enterradas, que foram descobertas nesse sítio arqueológico.

 

 

Museu Tulipe

O Museu Tulipe guarda a memória dessa civilização com elevado conhecimento da cosmologia
crédito Viramundo e Mundovirado

 

Os habitantes do local, os Yumbo, já eram conhecidos por historiadores e antropólogos mas acreditavam se tratar de uma cultura pobre que desapareceu no final do século 17. No entanto, as primeiras escavações revelaram a existência de um conjunto monumental formado por oito piscinas, além de aquedutos e terraças, cuja originalidade e características arquitetônicas são únicas no mundo. Assim, antes dos Incas, confirmou-se que entre os anos 800 d.C. até 1660 d.C. floresceu naquela região a nação Yumbo.

 

 

Yumbo

As piscinas também eram utilizadas para rituais
crédito: Museu Tulipe

 

Novas pesquisas confirmam que essa cultura se dedicava a cosmologia. E, a originalidade recai na maneira como eles estudavam a lua, as estrelas e a movimentação do sol. Como a região é muito rica em cachoeiras, rios, e riachos abastecidos pelo alto índice pluviométrico, os yumbo construíram grandes piscinas com o propósito de represar água para refletir os astros no céu. É o Planetário das Águas. Além dos estudos, as águas para os Yumbo possuíam um caráter mágico: faziam a comunicação celestial com o universo além da Terra.

 

 

Museu Tulipe

Como as piscinas se encontravam totalmente enterradas por cinzas vulcânicas, algumas casas foram construídas dentro do centro cerimonial dos Yumbo
crédito: Museu Tulipe

 

Cada descoberta ali é uma grande surpresa. Assim, Jaras, que também é diretor do Museu dos Yumbo, construído ao lado do sítio arqueológico, insinua que Tulipe é muito mais do que se pode enxergar e que, com a descoberta das ‘piscinas’, devemos conscientizar o mundo de que houve nas Américas outras civilizações tão importantes quanto os Incas, Maias e Astecas. O ponto alto da cultura dos Yumbo foi sua cosmovisão mítico-religiosa, baseada nas águas, e da qual resultou um refinado conhecimento astronômico.

 

 

Yumbo

A geometria e o traçado harmônico se destacam nas formas das piscinas
crédito: Viramundo e Mundovirado

 

“Com o espelho de água durante a noite tem-se completa observância de sua funcionalidade, pois é possível visualizar todos os corpos celestes e galácticos. Principalmente a Lua, que se reflete com mais beleza, volume e proximidade. Impõe sua presença igual à que há no firmamento, porém com uma particularidade: ao refletir-se na piscina, os Yumbo a ‘fazem prisioneira’, e trazem o Céu para a Terra”, interpreta Jaras.

 

 

Yumbo

No dia 6 de maio os raios do sol atingem justamente o ponto central dessa piscina circular
crédito: Viramundo e Mundovirado

 

No centro do complexo arqueológico existem quatro piscinas que formam uma cruz em quadrado perfeito, remetendo-se à constelação do Cruzeiro do Sul. Outra piscina tem uma estrutura poligonal de 20 lados e alude à figura de um jaguar deitado, animal associado à força, astúcia, e à sabedoria. Afastada do complexo principal está a maior das piscinas em forma circular com círculos concêntricos, passarelas, rampas, aquedutos, em que se comprova o fenômeno relacionado à trajetória do Sol durante o ano, em especial no período do equinócio e do solstício.
Uma conclusão é inevitável: ao chegar em Tulipe para iniciar suas investigações, Hólguer Jaras trouxe à luz a cultura inteira de um povo cuja destreza arquitetônica e o conhecimento da astronomia acabam por acrescentar milhares de anos à história do Continente Americano.

 

crédito: Viramundo e Mundovirado

 

*Matéria publicada originalmente no nosso blog Viagens Plásticas do Viagem Estadão


Comentários

Heitor e Silvia Reali
"Viajamos para namorar a Terra. E já são 40 anos de arrastar as asas por sua natureza, pelos lugares que fizeram história, ou pela cultura de sua gente. Desses encontros nasceu a Viramundo e Mundovirado."