Cuias santarenas, uma viagem para conhecer as artesãs desse patrimônio cultural brasileiro
O modo de fazer as cuias santarenas foi reconhecido pelo IPHAN como Patrimônio Cultural do Brasil, e as artesãs preocupadas com a preservação replantam constantemente a cuieira
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Cuias santarenas, uma viagem para conhecer as artesãs desse patrimônio cultural brasileiro

Cuias santarenas

Cuias santarenas, uma viagem para conhecer as artesãs desse patrimônio cultural brasileiro

Prato mais simples nesse mundo não havia. Era só apanhar o fruto da cuieira, separar em duas bandas, e estava pronto o prato! O mais fundo era perfeito para o mingau dos curumins, já os largos acomodavam bem os beijus. Mas, ahh! E o capricho das índias ia deixar a ‘baixela’ nessa simpleza desenfeitada? Qual o quê! As indígenas recobriam as cuias com um sem fim de traços em espirais, semicírculos, labirintos, e padrões retirados da natureza.

 

Porto de Santarém

 

Viajo ao Pará a fim de saber mais sobre as cuias das índias da região de Santarém, e que hoje continuam sendo feitas pelas artesãs dali. No movimentado porto da cidade, sigo numa espécie de barco-circular que vai parando em diversas comunidades banhadas pelo Rio Tapajós.

 

Aritapera

 

O sol já vai se pondo quando chego em Aritapera, onde Cecília minha anfitriã me aguarda diante de sua casa palafita. A artesã me apresenta o lugar: “no período chuvoso quando as águas do rio sobem, até para ir na vizinha preciso usar o barco, em compensação dá de pescar da janela”. O jirau onde ela e suas amigas se reúnem para pintar as cuias também é apoiado em pilotis, assim como a pequena horta de tempêros e o galinheiro.

 

Aritapera

 

No cadenciado falar caboclo, as artesãs vão me contando sobre as cuias: “Elas servem “para um tudo”: tirar água dos barcos, tomar banho no rio, cozinhar, armazenar água, e ainda de copo ou prato, como no caso do tacacá, iguaria feita da goma de mandioca, tucupi, camarão e folhas de jambu.

 

Aritapera

 

“O mais bacana é que a árvore da cuieira produz frutos de formatos diversos que batizamos com nomes de: peixe-boi, a maior delas e ideal para fruteiras; maracá, utilizada para copos ou vasos; comprida que dá boas travessas; e da pequena cutita, são feitos copinhos”, conclui a artesã Marta.

 

Cuias santarenas

 

O falatório recai agora sobre a elaboração das cuias “feitas do mesmo jeitinho que as índias faziam: serramos ao meio os frutos, retiramos o miolo, com escamas de pirarucu lixamos as peças, e os desenhos são riscados a faca ou canivete”. Fico sabendo também que da casca do axuazeiro é feito o cumatê, um corante natural. Este grupo de artesãs de Aritapera só trabalha com motivos florais influenciados pela louça de faiança trazida pelos colonizadores europeus.
Aritapera

 

De Aritapera sigo agora a bordo de pequeno barco em direção ao vilarejo de Cabeça d’Onça. Nos caminhos aquáticos sou surpreendida vez ou outra pelos saltos de botos cor-de-rosa, ou do cinza tucuxi. Ali vou me reunir com as artesãs das distantes comunidades de Surubim-Acú e Carapanatuba que decoram as cuias com grafismos indígenas, e mais a criatividade de cada uma.

 

Cabeça d'Onça

 

Em Cabeça d’Onça, mulheres alegres e de todas as idades que enfrentaram mais de cinco horas de viagem de barco estão me esperando na varandona da casa da artesã Maria Durvalina. Elas me revelam que o ofício reúne quase 200 famílias, é muito importante para a contribuição de renda, que repassam o saber para as mais jovens, e enviam as cuias para serem vendidas no Mercado de Santarém e nas lojas de artesanato de Belém.

 

Cuias santarenas

 

O modo de fazer cuias foi reconhecido pelo IPHAN como Patrimônio Cultural do Brasil, e as artesãs preocupadas com a preservação replantam constantemente a cuieira.

De volta a Aritapera, mergulho minha cuia naquela água cor de mel cristalizado, e de temperatura reconfortante. No banho refresco corpo e alma. Chega meu onibus-barco, me despeço das artesãs e sigo viagem. Agora, de mala e cuia!

 

Contato da Asarisan, a Associação das Artesãs de Santarém: [email protected]

*Matéria publicada originalmente no nosso blog Viagens Plásticas, no Viagem.Estadao


Comentários

Heitor e Silvia Reali
"Viajamos para namorar a Terra. E já são 40 anos de arrastar as asas por sua natureza, pelos lugares que fizeram história, ou pela cultura de sua gente. Desses encontros nasceu a Viramundo e Mundovirado."